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Hechame flores
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    March 21st, 2010Camisa moça (L.B.)

    O sol ainda brilhava. A menina, depois de dias barulhentos e pesadelos insistentes e maldosos, tomara a resolução. Decidira fazê-lo naquele mesmo dia (aproveitando a claridade do dia -  o escuro lhe era algo assustador). Calçou, então, suas galochas e pegou, furtivamente, a pá de jardinagem de seu vizinho. Antes disso, porém, já havia colocado seu sentimento do mundo na caixinha (ele, em sua inocência juvenil, não poderia imaginar o que lhe aconteceria).

    Com o corpo pesado e dolorido, dirigiu-se ao local onde colocaria seu plano em prática: o cemitério (que possuía uma peculiaridade: aquele não servia só para enterrar e guardar cadáveres humanos, mas qualquer tipo de inutilidade ou sentimentos que perderam o seu ser). Empurrou o grande portão de ferro e, diante de seus olhos, surgiu uma imensidão verde de cruzes brancas presas ao chão. O vento, matreiro, deu-lhe as boas-vindas, soprou-lhe a face e movimentou a saia de seu vestido. O tempo, naquele local lúgubre e sem qualquer inquietação, estava suspenso. O silêncio era apenas cortado pelo pipiar dos pássaros.

    Por mais que fechasse os seus olhinhos para enxergar mais longe, a menina não conseguia ver as paredes do cemitério. As pessoas do mundo gostavam de enterrar aquilo que não queriam mais recordar; talvez em um momento de ilusão de que aquilo nunca mais lhes incomodaria. Com ela não era diferente.

    Procurou o melhor lugar para enterrar o sentimento do mundo. E o encontrou sob a sombra acolhedora de uma grande árvore. Tirou sua pequena mochila das costas, agachou-se e apertou, com a palma das mãos, a terra. Sua mão afundou sobre a grama esplendorosamente verde e fofa (a grama escapava-lhe pelos dedos). Sim, aquele era o lugar ideal.

    Com a pá de jardinagem que tomara emprestada do vizinho, a menina começou a cavar. Já nenhum pensamento lhe incomodava. Sua atenção voltara-se apenas para a atividade de revolver a terra e formar-lhe uma fenda. Cavou o suficiente para que o sentimento do mundo não pudesse escapar. Sete palmos.

    Dolorosamente, com as mãos trêmulas, tirou-o de sua caixinha. Ainda tinha os olhos inocentes e resplandecia como o sublime. Quando percebeu que seria abandonado e enterrado por sua dona, o sentimentozinho, desesperadamente, agarrou-se à menina. Segurou-lhe os braços, em uma inútil tentativa de salvar-se e gritou. Implorou para que não fosse posto sob a terra. Se comportaria. Lágrimas. Lágrimas que cortavam o coração da menina, mas incapazes de convencê-la. Ela não poderia mais cuidar de seu sentimento do mundo sozinha. Não. Precisava voltar à vida. Tratou, então, de devolvê-lo à sua caixinha. Colocou-a, cuidadosamente, na nova e escura profundidade. Ainda ouvia suas súplicas e aquilo lhe perturbava e feria. Cobriu com a terra a pequena urna funerária o mais rápido que pôde (como se assim o sofrimento passasse em um instante). A respiração era difícil, seu coração pesava e os olhinhos, agora úmidos, contemplavam a terra que havia sido revolvida.

    Nada mais havia a ser feito. Com as mãos nos ouvidos para não ouvir os gritos desesperados de socorro de seu sentimento do mundo, partiu. Correu rápido, com passos maiores do que sua perna agüentavam, em direção ao portão. O sol se apagara e dava lugar à escuridão.

    Depois do terrível funeral, as horas e os dias passavam arrastados. Dias cruéis e dolorosos. A menina, mergulhada em sua tristeza, olhava para o espaço que a caixinha deixara em sua cômoda.

    Na primeira semana, levou-lhe flores. Gérberas laranjas (elas exalavam, em um uníssono entendimento, o perfume da felicidade e da tristeza). Mas o caminho era difícil e tortuoso. E, afinal, o sentimento do mundo já estava sepultado. Em sua última visita, o céu, desprovido de qualquer alvoroço, irradiava sobre ela sua imensidão azul. O ar lhe era aconchegante. O silêncio só era quebrado pelo leve ruído de seus passos sobre a grama. A menina ajoelhou-se ao lado túmulo. Desta vez, além das gérberas, pousara sobre a nova morada do sentimento do mundo flores do campo (como as últimas que havia recebido). Não lhe deu explicações. Não lhe pediu para ter coragem. Não lhe falou das saudades que feriam o seu coração. Apenas cravou na terra a plaquinha que fizera: “aqui jaz o sentimento do mundo - desconhecidos foram o seu nascimento e sua morte – descanse em paz.” E foi-se embora, com o rosto inundado de lágrimas, sem olhar para trás.

    JRGM